quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Especial em Foco: os desafios do futebol feminino no Brasil

 
A equipe feminina do Juventus: uma das muitas que lutam para
sobreviver no Brasil (foto: Daniel Ramos)

Já há algum tempo eu queria fazer uma postagem neste blog abordando este tema... e enfim, chegou o momento.
Quem me conhece mais de perto sabe o quanto gosto de futebol - algum tempo atrás, foi um dos temas sobre os quais eu mais postava por aqui. No entanto, acho que nem todo mundo deve saber... eu sou simplesmente fascinado pelo futebol feminino, e assisto a partidas sempre que tenho oportunidade.
Mesmo o esporte tendo a enorme popularidade que tem no Brasil, o futebol praticado por elas aqui ainda não tem a estrutura e a divulgação que merecem - uma realidade bem longe do futebol masculino, que movimenta um mercado com cifras astronômicas.
Pensando nestes fatores, resolvi escrever este texto, que vocês vão conferir a seguir.


HISTÓRICO


A prática do futebol por mulheres no Brasil começou no início do século XX - a primeira partida de que se tem notícia data de 1921, e foi disputada entre moças dos bairros do Tremembé e da Cantareira, na zona norte de São Paulo.
Atribui-se ao Araguari Atlético Clube o título de primeiro clube do Brasil a formar uma equipe de futebol feminino, mas há registros de equipes formadas por mulheres em outros cantos do país, como em Campos dos Goytacazes (litoral do RJ), por exemplo.
No entanto, os jogos não possuíam caráter de competição - à época, eram mais considerados como exibição ou entretenimento.

No Brasil, o futebol feminino enfrentou toda sorte de dificuldades - a prática do futebol por mulheres chegou até mesmo a ser proibida por lei (!!!) em 1941, em um decreto de autoria do então presidente Getúlio Vargas, que proibia não só a prática do futebol como de qualquer outra modalidade esportiva que fosse "incompatível com a natureza feminina" (tsc, tsc... só no Brasil mesmo).
Tal sandice só viria a ser desfeita em 1979, quando o decreto foi revogado.

A vitoriosa equipe do Radar: pioneira na profissionalização
do futebol feminino (foto: Divulgação)

A revogação do estapafúrdio decreto deu margem à criação de equipes de futebol feminino já em caráter profissional.
O pioneiro desta iniciativa foi o Esporte Clube Radar - clube fundado em 1932 no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro - que, em 1981, criou um departamento especialmente para o futebol feminino. E fez história, pois sua equipe, sob o comando do técnico e empresário Eurico Lira, foi vitoriosa em todos os torneios que disputou, sobretudo na década de 1980; o Radar também foi a base da primeira Seleção Brasileira feminina, convocada em 1988.
Mesmo com todo este histórico glorioso, a equipe de futebol feminino do Radar fechou as portas em 1991, devido a dificuldades de patrocínio e a escassez de torneios.

A craque Marta: cinco vezes eleita melhor do mundo
pela FIFA (foto: Gallo Images)

No cenário mundial, o futebol feminino brasileiro começou a ganhar lugar de destaque em meados da década de 1990, quando a modalidade foi incluída na lista dos esportes olímpicos.
Na primeira Olimpíada disputada, em Atlanta-1996, as brasileiras alcançaram o quarto lugar - feito que repetiriam nos Jogos seguintes, em Sydney-2000.
O Brasil ainda viria a conquistar duas pratas olímpicas (Atenas-2004 e Pequim-2008) e dois ouros panamericanos (Santo Domingo-2003 e Rio-2007).
Entre as melhores jogadoras do mundo, o destaque também vai para uma brasileira: Marta, atualmente no Orlando Pride (EUA), que já foi premiada cinco vezes como melhor do mundo pela FIFA - um recorde: nem entre os homens conseguiu-se tal feito.


CENÁRIO ATUAL

O preconceito e a falta de incentivo ainda são problemas para o desenvolvimento do futebol feminino, especialmente no Brasil. No entanto, comparando-se a algumas décadas atrás, o cenário mudou muito: já há torneios oficiais e um número maior de equipes - apesar disso, as coisas ainda estão longe do ideal para a grande maioria delas.
As meninas do Juventus em ação contra o Centro Olímpico,
pela Copa Ouro Sub-20 (foto: Ale Vianna/C.A. Juventus)

Uma dessas equipes, que possui uma trajetória interessante, é a do Juventus, equipe tradicional do futebol paulista. No passado, o clube formou atletas importantes de nível de Seleção Brasileira, como a atacante Cristiane.
Atualmente, conta com uma equipe formada, quase na sua totalidade, com meninas entre 18 e 20 anos de idade.
Apesar da tradição do clube e do peso da camisa, não há uma estrutura profissional relacionada ao futebol feminino: as atletas recebem apenas uma ajuda de custo relacionada ao transporte e uma bolsa de estudos de 50% em uma faculdade conveniada. Não há salários nem registro em carteira de trabalho.
Mesmo com todas as dificuldades, a equipe juventina figura entre as melhores da categoria sub-20, e já disputa competições oficiais, como o Campeonato Paulista.
Até o fechamento desta postagem, as meninas do time da Mooca estavam se preparando para disputar a final da Copa Ouro Sub-20, torneio organizado pela Associação Paulista de Futebol (que não tem nada a ver com a FPF, que organiza os Paulistões masculino e feminino), contra a Ferroviária de Araraquara, que já foi campeã da Libertadores Feminina - a decisão, que será em partida única, será no próximo sábado (18), na Arena da Fonte Luminosa.
"Ainda não conhecemos bem o time da Ferroviária; por isso estamos trabalhando forte e acreditando no que já fizemos durante a competição", disse a atacante do Juventus, Daniela Ortolan.

Preparação das juventinas para o jogo contra a Ferroviária,
pela final da Copa Ouro Sub-20 (foto: Daniel Ramos)

Na visão do diretor do departamento, Marcelo Okidoi, ainda há muito o que ser feito no cenário do futebol feminino brasileiro: "Falta visibilidade. Se os torneios tivessem uma divulgação maior, certamente atrairiam investidores para o esporte. Mas as entidades também devem se preocupar em organizar melhor os campeonatos", declarou Marcelo ao Em Foco.

Há esforços para que se realize uma profissionalização da modalidade - a FIFA já anunciou que, a partir de 2018, será adotado um sistema de transferências similar ao que já existe no futebol masculino, com registro das atletas e janelas de transferência, por exemplo.
A própria CBF também adotou medidas que visam o crescimento do futebol feminino: a partir de 2019, os clubes da série A do Brasileirão deverão obrigatoriamente possuir uma equipe feminina disputando torneios nacionais - do contrario, não poderão disputar a Libertadores, por exemplo.
Se tais mudanças terão um impacto positivo, isto só o tempo vai dizer.

A verdade é que o Brasil, um país tido como referência no futebol mundial, deveria olhar com mais carinho para as meninas e mulheres dos nossos gramados. O futebol feminino é um espetáculo que merece ser prestigiado, e sem sombra de dúvida, merece uma atenção maior tanto do público quanto dos nossos dirigentes.
Pois muitas dessas meninas que se sacrificam pra entrar em campo tem bem mais bola no pé do que muito marmanjo por aí que ganha milhões por mês.

"As coisas melhoraram, mas ainda falta muito.  Não podemos parar de pedir apoio, ajuda. Por mais que escutemos: 'ah, mas vocês só reclamam'. Vamos reclamar. Até ver que as coisas estão funcionando."(Marta, jogadora eleita cinco vezes melhor do mundo pela FIFA, em entrevista ao blog Dona do Campinho, do globoesporte.com)


Colaboração: Silas Ferreira
Agradecimentos: Marcelo Okidoi/C.A. Juventus


(Fontes: globoesporte.com, Leituras da História, Futebol no Brasil)


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