quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Opinião em Foco: 'Sol Nascente' - um tiro no pé da Globo

(Imagem: Divulgação/Rede Globo)

Há cerca de duas semanas, estreou na Rede Globo a novela Sol Nascente, novo título da emissora para o horário das 18:00hs.
A trama central gira em torno de um imigrante japonês e de sua família, e busca retratar a cultura e os costumes do Japão.
Mas, logo de cara, a Globo causou polêmica: para o papel do protagonista Kazuo Tanaka, foi escolhido o ator Luís Mello; e uma de suas filhas é interpretada por Giovanna Antonelli.
A escolha destes atores irritou a comunidade nikkei, bem como descendentes de orientais de outras origens, que acusam a Globo e outros veículos de comunicação de racismo e reclamam de falta de representatividade de orientais na mídia.
Em resposta à atitude da Globo - e também como forma de combater o preconceito - atores de origem oriental se uniram e formaram o Coletivo Oriente-se, que tem como objetivo abrir mais espaço na mídia para os orientais, bem como quebrar estereótipos.


E dou toda a razão para eles. Esses dias, vi algumas cenas da novela durante o jantar, e, sério... não deu pra engolir.
Antes da novela estrear, já fiquei sabendo sobre o que a Globo havia feito no elenco (colocando um ator sem qualquer ascendência oriental no papel de um japonês), e disse pra mim mesmo: "xiiii, isso vai dar m****..." E de fato, não deu outra.
Fala sério, gente... o negócio ficou simplesmente RIDÍCULO!!! Completamente nada a ver.
E que fique claro: não tenho absolutamente nada contra o Luís Mello, pelo contrário: acho ele um excelente ator. Mas, por mais que ele se esforce pra fazer bem o papel (até porque, talento ele tem de sobra), a coisa não fica convincente. Pura e simplesmente por que de japonês ele não tem nem o branco do olho!!!
Seria cômico... se não fosse trágico.

Luís Mello (ao centro) faz o papel de um imigrante japonês em Sol Nascente: WTF?!?! (foto: João Miguel Junior/Rede Globo)

E a coisa não pára por aí. Quando eu estava pesquisando sobre a novela para escrever este post, uma informação que obtive é a de que o cotado para o papel de Kazuo Tanaka em Sol Nascente era o veterano Ken Kaneko, bastante experiente e que já fez trabalhos em filmes e novelas. Certamente, era o ator mais indicado para o papel.
Mas, na última hora, a Globo resolveu colocar Luís Mello no lugar dele. E o resultado é a lambança (pra não dizer outra coisa) que estamos vendo no horário das seis agora.
Como diria o youtuber Pablo Peixoto, dono do canal Qu4tro Coisas: "é uma pantomima, é uma patuscada, e merece um lightsaber na orelha!" E ainda é pouco.

Sério, gente... A Rede Globo é a maior emissora de televisão deste país. E é vista como referência no resto do mundo, principalmente no que se refere à teledramaturgia. Já produziu, em décadas, grandes novelas, como Irmãos Coragem (1970), Selva de Pedra (1972), O Bem-Amado (1973), Escrava Isaura (1976), Dancin' Days (1978), Roque Santeiro (1985), Vale Tudo (1988), O Rei do Gado (1996), O Clone (2001), Caminho das Índias (2009), entre outras. Todas sucesso de audiência e, inclusive, premiadas (caso de Caminho das Índias, que ganhou um Emmy).
Será que, com toda a estrutura e todo o know-how que a emissora possui (ou ao menos um dia teve) em termos de produção de novelas, não havia condições para colocar alguém mais adequado para o papel (e realmente tinham... mas resolveram colocar outra pessoa)?

E de fato, indo mais a fundo dentro da questão, o que se percebe é que há ainda uma representatividade baixa de orientais no meio artístico - claro que existem algumas figuras que quebram um pouco essa escrita, como Sabrina Sato, que hoje tem um programa próprio dentro da Record, ou o baterista Japinha, da banda CPM 22. Mas são casos à parte.
Dentro da dramaturgia, principalmente, os orientais ainda são representados de uma forma estereotipada, que nem sempre corresponde à realidade - a verdade é que, após séculos de imigração, essas pessoas se integraram à nossa sociedade e deram uma contribuição valiosíssima. E se tornaram cidadãos brasileiros como quaisquer outros.

Mas, há alguns fatores que influenciam, conforme menciona o ator e apresentador Kendi Yamai, dono de larga experiência dentro do meio artístico, com participações em novelas e diversos programas de TV, que declarou com exclusividade ao Em Foco: "Infelizmente, se você for analisar, a porcentagem de asiáticos dentro do Brasil é muito pequena, se comparada a outras etnias, como negros, por exemplo, que têm uma presença mais forte", disse.
Sobre a questão referente à Sol Nascente, Yamai falou sobre o corporativismo existente na emissora, e a busca pela audiência: "A Globo trabalhou a imagem de vários de seus atores ao longo dos anos; fatalmente, eles vão acabar dando preferência aos atores da casa. Para eles, não adianta colocar um japonês no elenco esperando que ele traga a mesma audiência de um Tony Ramos, por exemplo".

Kendi Yamai, ator e apresentador: "Para a Globo, não adianta colocar
um japonês no elenco esperando a mesma audiência de um ator da casa"
(foto: Daniel Ramos)

Iniciativas como o Coletivo Oriente-se são vistas de forma positiva por Kendi: "É algo muito bacana, sempre estamos brigando por mais espaço. Acho uma iniciativa super válida; espero que os autores comecem a olhar para nós com mais atenção".

Para o apresentador do Miss Nikkey Brasil, no entanto, o mais importante é a representatividade, e não o tipo de papel - segundo ele, se houver mais papéis, haverá uma presença maior: "Acho que tem que ter (papéis), não importa o quê. Pode ser qualquer coisa: o yakuza (mafioso japonês), o político, o gay, tudo. Sou sempre a favor de ter de tudo: o estereotipado, o caricato, o normal. Por quê? Porque aí a gente vai ter mais presença dos descendentes de japoneses e também de asiáticos no geral, desde coreanos, chineses, etc" - disse Kendi.

O fato é que, de qualquer forma, precisamos olhar com mais carinho para as nossas comunidades orientais - pois boa parte da grandeza do nosso país se deve à contribuição delas.
E a cultura oriental é algo muito bonito - mas quem conhece melhor uma cultura é alguém que vive dentro dela, e que faz parte dela.
E isto inclui a dramaturgia - é necessário que se dê mais espaço para atores que descendem de orientais.
Particularmente, se eu fosse um ator, e me dessem um papel de um oriental para fazer, eu certamente recusaria - e recomendaria aos meus diretores que pegassem um ator de origem oriental para aquele papel, pois, certamente, ele faria melhor aquele papel.
Enfim... vai da consciência de cada um.

A Globo tinha tudo para fazer de Sol Nascente uma grande novela, à altura das que mencionei anteriormente. Mas, com a escalação de Luís Mello para o papel de um imigrante japonês, ela deu um tiro no pé - se a intenção era ganhar audiência, ela pode acabar tendo um efeito contrário. Pelo menos por parte da comunidade nikkei.
É uma prova da decadência da teledramaturgia global - e também, de que temos muito o que aprender no que se refere à igualdade e ao respeito ao próximo.
Sim, porque orientais são pessoas como quaisquer outras... e merecem ser tratados com mais respeito.

Quem quiser conhecer o Coletivo Oriente-se e suas ideias, pode acessar a página do coletivo no Facebook e também conferir os vídeos no canal do Youtube.
Vale a pena.

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